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junho 2009

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Culpa


Era outra noite de inverno, fria, chuvosa, e fui a casa de um amigo assistir alguns filmes. Não me recordo de muitos detalhes daquela noite, apenas lembro de um grande estou, seguido de uma escuridão. Após um longo silêncio fomos até os dijuntores para religar a energia. Enquanto descíamos do andar onde os dijuntores estavam, iniciou-se uma brincadeira de empurra-empurra. Quando empurrei meu amigo, ele perdeu o equilíbrio e caiu. Sutil, o sangue fluía pela escadaria.
Após o acontecimento, liguei para a polícia comparecer ao local, nervoso, com o telefone tremendo em minhas mãos. Conforme o polícial ia me fazendo as perguntas do interrogatório, começava a me perguntar se seria melhor mentir ou falar a verdade. Perguntavam por que eu estava ali, qual a minha relação com a vítima. Tentava esconder que o empurrei, mas certamente mentir não era um dos meus talentos. Minha boca falava coisas sem pensar, sem sentido, enquanto meus olhos entregavam a verdade.
Hoje, exatamente um ano depois, estou em casa, assistindo a um filme, porém sozinho. Não fui condenado como culpado, o caso ficou arquivado juntamente com os outros de mortes acidentais. Minhas notas caíram na faculdade, estou isolado de todos, não consigo mais passar pela rua onde ele morava, sentia a culpa cada dia maior. Havia arruinado uma família, matado o filho único, levando a mãe dele a loucura, chegando ao ponto de se suicidar, deixando o marido sozinho, tento que lidar com a dor dessas perdas diariamente.
Enquanto pensava sobre isso, sem dar a mínima atenção para o filme, ouvi um estouro na porta, vindo do lado de fora. Dei pause no filme, larguei o controle sobre a mesa e lentamente fui ver o que havi causado tal barulho. Ao chegar na porta, suava frio, sentia um frio na minha barriga. Abri a porta, mas não havia nada lá, com excessão da escuridão da noite, e um cachorro provavelmente sem dono procurando por algo no lixo. Soltei o ar lentamente, com um pequeno sorriso, feliz, fechei a porta. Assim que a fechei, um ruído alto veio da sala, parecia o som de algumas pessoas conversando. Andei até lá e me deparei com a televisão ligada, passando o filme, senti um arrepio cindo da minha cabeça até meus pés, ficando mais intenso assim que percorria pela minha espinha. Não sentia o chão, estava tonto. Fui correndo, ainda sem equilíbrio, para desligar a televisão, apertei o botão vermelho do controle remoto, nada acontecera. Puxei a tomada da televisão da parede, ela havia desligado, o silêncio começou a predominar na casa. Olhava, apavorado, sem reações para o chão. Só conseguia pensar no acidente.
Corri para o meu quarto, olhei para o espelho para ver se estava bem, se não estava louco ou algo semelhante. Enquanto recuperava meu fôlego, meus batimentos cardíacos, minha consciência, vi um vulto passar por trás de mim no corredor. A sensação voltara, o pânico, a agonia, a vontade de sair logo de minha casa. Meus pensamentos eram instáveis, não sabia se descia ou ficava ali, se ligava para um amigo ou se chamava alguém na rua. Decidi descer, ter certeza do que estava acontecendo ali.
Me aproximei das escadas, antes de descer enxergava manchas de sangue nela inteira. Desci o resto da escada lentamente, com medo de encontrar algo. Já sabia do que se tratava. Fui até onde assistia televisão para pegar o telefone, já que estava caído debaixo da minha mesa de centro de madeira restaurada. Assim que coloquei a minha mão embaixo dela para procurar o telefone, algo me tocou, era algo gelado, tentei sentir para saber o que era, mas o medo falou mais forte, acabei tirando minha mão dali. Quando a retirei, a luz havia acabado. Um breve relâmpago iluminou a sala, podia sentir uma respiração próxima de mim, um vulto estava sentado no sofá, assim que me virei não havia mais nada lá. Desesperado, com os olhos cheios de água, sem saber o que falar, pensar ou fazer. Quando menos esperava, a energia voltou, iluminando as paredes cheias de sangue com mensagens dizendo que eu era o culpado, e teria que pagar por isso. Sentei no chão, a ponto de não aguentar mais. Fui indo para trás, ainda sentado, havia encostado em algo, levantei rapidamente e olhei o que estava ali. Era o mesmo vulto, olhando diretamente para mim com uma expressão raivosa, era o meu amigo que eu havia derrubado da escadaria, ele estava com o pescoço torto, provavelmente porque havia o quebrado na queda. Percebi o vulto se aproximando de mim.
- Para com isso! - Gritei. Provavelmente meu grito ecoou pela quadra inteira.
Abri os olhos e mais nada daquilo estava lá. Havia me decidido, iria falar a verdade no dia seguinte, talvez fosse isso que ele queria, talvez fosse minha mente brigando comigo, mas hoje percebi a importância da verdade. Para algumas tribos a verdade e a mentira estão em portas separadas, uma ao lado da outra, só precisamos decidir em qual querermos entrar. Acho que já escolhi a minha.


júnior hid their secrets at 14:21

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