sexta-feira, 5 de junho de 2009
Fuga Matinal
Era uma segunda-feira e o sol começava a nascer. Uma mulher alta e fina caminhava sem rumo pelas ruas úmidas de uma cidade grande qualquer. Seus sapatos de salto faziam um barulho que transmitia confiaça e poder.
Os primeiros trabalhadores começaram a sair de suas casas com um ar desanimado. Todos eram aparentemente iguais, porém um deles, um homem forte e brabudo, chamou sua atenção.
Ela pigarreou duas vezes seguidas e os homens olharam, dando sorrisos maliciosos e corriqueiros. E, novamente, o homem barbudo despertou seu interesse. Ele não havia sequer dirigido um olhar para aquela loira, que mais parecia uma modelo.
Observando tudo de longe por uma grande janela, estava o chefe de ambos. Ele sorriu misteriosamente e acendeu um cigarro. Seu telefone tocou. Era a mulher.
- Alô?
- Oi, aqui é a Paula.
- Paula, que surpresa! Vai voltar a ser minha editora-chefe?
- É, era isso que eu ia dizer - sua voz parecia desanimada. - Estou chegando na redação agora mesmo.
O Patrão desligou o telefone sem mais uma palavra. Tudo corria bem.
Paula conseguiu, finalmente, conversar com o homem da rua. Seu nome era Jeff Harris, um jornalista que estava crescendo no jornal Fuga Matinal - curioso nome, pensam todos - porém nunca caiu nas graças do Patrão.
Jeff estava visivelmente impressionado com a atenção da editora-chefe. O que ele não sabia que tudo iria mudar.
A linda loira bateu delicadamente na porta de Jorge Vidal, o poderoso dono do jornal. Ele sorriu assustadoramente ao vê-la, provocando calafrios em todo o seu corpo.
O Patrão começou um vertiginoso discurso sobre a falta que Paula Fernandes havia feito na redação e que o substituto de seu cargo não tinha a metade de competência que ela possuía. Um dom natural, continuou Vidal. O Patrão moveu suas mãos. Uma luz forte refletiu nos olhos de Paula, cegando-a completamente. Sentiu as mãos quentes como brasa de um homem acariciando sua face, seu corpo.
A mulher quis gritar, mas não encontrou forças para nada. Deixou que aquele monstro a violentasse. Sentiu que havia uma venda em seus olhos e depois sentiu que a tortura havia acabado.
Após o que pareceram algumas horas, Paula retirou o pano - que tinha um cheiro forte de bebida alcoólica. Estava no mesmo lugar onde tudo havia começado. Levantou-se com dificuldade e não avistou ninguém por perto. Parecia um sonho, mas as dores estavam ali, queimando o que havia por dentro.
Descia os pequenos degraus da sala de Jorge, até que ouviu um abrupto estalo - um tiro. A bala cravou em seu coração fria e lentamente, trazendo uma dor lancinante. Pôde ver Jeff acariciando o revólver que, um tempos antes, estava em sua bolsa vermela cravejada de diamantes.
- Planejava mortes para hoje, não? - zombou o homem com sua voz grave.
- O... quê? perguntou Paula, fingindo ingenuidade.
- Logo que vi você, entendi o que veio fazer. Primeiro, roubar o lugar que estava sendo ocupado por mim. Segundo, matar Jorge Vidal. Mas não importa mais. Ele tinha seus próprios planos para com você e eu sabia deles. Me lembre de perguntar a ele se deu tudo certo. Pelo visto, sim - ele riu estrondosamente, fazendo a moça tremer. - Ninguém é mais esperto que o Patrão, linda Paula.
A mulher avançou em direção de Jeff, com um lampejo ne raiva no olhar. Ele riu e atirou mais duas vezes contra Paula e ela caiu.
Sutil, fluía o sangue pela escadaria. O homem fez uma expressão sarcástica e se dirigiu ao cadáver:
- Todos sabem que Jorge nunca foi muito ético, mas matá-lo? Um absurdo. Vá para o inferno.
Horas depois, Matías, um mensageiro, encontrou o cadáver gelado de Paula.
Jeff, executando sua função de editor-chefe, sorriu calmamente e voltou a ler um artigo de Fuga Matinal.
- Bom dia! - disse para uma senhora que atravessava a redação desesperada. A mãe de Paula, presumiu. Sorriu novamente. Ela saiu sem responder.
'Bom dia', pensou Jorge Vidal, no avião rumo à Paris. Mais precisamente, voo 447, Companhia Aérea Air France.
Anns hid their secrets at
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