"Amor, eu preciso de algumas coisas do super..." "Tá, eu vou sair do trabalho e pego uma lista aí em casa, tchau."
Rotina, rotina. Acordar, trabalho, almoço, trabalho, pegar as crianças na escola, jantar e dormir.
Sorte eu ter conseguido um tempo para ir no super mercado. Sorte?
Aquele dia estava nublado e frio. O maldito carro não pegava de jeito nenhum, mas quando
pegou eu liguei o rádio e o ar quente. Finalmente um pouco de descanso.
Foi quando uma interferência no rádio chamou minha atenção : um monte de partes de músicas
se juntavam e eu jurei ouvir "ninguém está a salvo (...) mas você tirou a sorte grande (...)".
Fiquei assustado e desliguei o rádio. Dali um tempo, me esqueci do fato.
Dobrei uma esquina e visualizei minha casa. Analizei-a. Era um pouco pequena, branca e com
janelas amarelas. As crianças, Ben, de 10 e Silvie, de 6,estavam brincando no jardim. Dava
para ver minha mulher na cozinha pela janela, Ruth. Eu realmente não poderia reclamar da minha
vida, mesmo assim estava bem cansado. Abracei as crianças, dei um beijo em Ruth e troquei
de roupa. Já ia saindo quando ela me chamou: "Thomas, aqui, a lista". Peguei-a e saí.
O super mercado era grande, tinha dois andares e várias seções. Estava um pouco cheio,
as filas se formavam nos caixas. Peguei um carrinho e comecei as compras.
"Café"
Café.
"Laranjas - 15"
Quinze laranjas.
"Cereal pro Ben"
Qual era o preferido dele mesmo?Ah, lembrei.
"Leite desnatado"
Certo.
"Grampos"
Hã,clips ou aqueles para grampeador?Tá,os dois.
E por aí foi.Até que uma hora, eu estava pegando os pepinos e as beterrabas, faltou
luz.Os geradores ligaram-se, mas eu ainda estava na penumbra.Vários gritos de crianças
assustadas ecoaram. Eu até achei divertido, sendo que medo do escuro eu não tinha nem um
pouco. Resolvi encerrar as compras e voltar outra hora. Quando passei pelo caixa, não
tinha ninguém. Nenhum atendente perguntando se eu queria participar do sorteio
"Economia que vale um milhão", nenhum guarda. Nada. Só clientes assustados e confusos,
querendo pagar seus produtos e ir embora. Eu era um deles,exceto que eu não estava
assustado, não até agora. Liguei para Ruth explicando e avisando que eu ia chegar um
pouco mais tarde. Ela já ficou toda preocupada, dizendo que ia chamar a polícia,
mas eu acalmei-a. Achava, pelo menos.
Eu realmente não sabia o que fazer, se esperava para pagar ou se ia embora.
Resolvi esperar.
O que definitivamente não devia ter feito.
continua.